segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Hallelujah, de Leonard Cohen

Hallelujah é uma canção escrita pelo compositor canadiano Leonard Cohen. Originalmente fez parte do álbum Various Positions (1985). O tema foi gravado mais de 180 vezes por diversos artistas, tendo sido utilizado em vários filmes e emissões televisivas.

Ao ouvir esta canção, podemos constatar que a sua melodia é quase litúrgica e que nos pode conduzir facilmente a uma experiência espiritual. Hallelujah interessa-nos sobretudo porque contém diversas referências bíblicas. Para começar, o seu título é uma palavra hebraica que significa “louvai o Senhor”. É uma exclamação utilizada na liturgia e nos salmos.

O sujeito da canção parece ser David, o rei que compunha e tocava música para o Senhor. A Bíblia descreve, com efeito, que tocava harpa para acalmar o rei Saul.

“E sempre que o mau espírito atormentava Saul, David tomava a harpa e tocava. Saul acalmava-se, sentia-se aliviado e o espírito mau deixava-o.” (1 Samuel 16,23)

O segundo verso da canção lembra a história de David e Betsabé:

“E aconteceu que uma tarde David levantou-se da cama, pôs-se a passear no terraço do seu palácio e avistou dali uma mulher que tomava banho e que era muito formosa. David procurou saber quem era aquela mulher e disseram-lhe que era Betsabé, filha de Eliam, mulher de Urias, o hitita. Então, David enviou emissários para que lha trouxessem. Ela veio e David dormiu com ela, depois de purificar-se do seu período menstrual. Depois, voltou para sua casa.” (2 Samuel 11,2-4)

A narrativa descreve a maior falta do rei David: além de Betsabé ser casada, o monarca aproveitou-se do seu poder para fazer com que o marido, Urias, fosse morto:

“Coloca Urias na frente, onde o combate for mais aceso, e não o socorras, para que ele seja ferido e morra.” (2 Samuel 11,15).

Seguidamente, a composição evoca outra narrativa bíblica: “She broke your throne and she cut your hair”. Reconhecemos aqui a história de Sansão, o homem quase invencível, que foi vencido por Dalila. Ela seduziu-o, com o objectivo de encontrar o seu segredo:

“Sobre a minha cabeça jamais passou a navalha, pois sou consagrado a Deus desde o seio de minha mãe. Se eu fosse rapado, a minha força se afastaria de mim; ficarei sem forças tal como qualquer homem!” (Juízes 16,15-17)

Dalila acabaria por cortar os seus cabelos; depois, chamou os Filisteus, que o mataram.

O terceiro verso tira uma conclusão das duas histórias anteriores: “Love is not a victory march. It's a cold and it's a broken.” O amor é frio e estaladiço, pois foi o amor de uma mulher que despedaçou David e Sansão. Cohen estabelece uma ligação com a sua vida: “I have been here before I know this room, I've walked this floor”. Também ele conhece amores assim.

Depois, o autor relaciona o acto sexual com Deus: “And remember when I moved in you, The holy dove was moving too, And every breath we drew was Hallelujah.” A ligação entre a pomba e o Espírito de Deus é bem evidente na narrativa do baptismo de Jesus:

“Quando saía da água, viu serem rasgados os céus e o Espírito descer sobre Ele como uma pomba.” (Marcos 1,10)

Em hebraico e em grego, a palavra para “espírito” é a mesma para “sopro”. Compreende-se porque é que Cohen faz uma ligação entre a respiração dos amantes e a de Deus.

Leonard Cohen

“You say I took the name in vain” alude, provavelmente, a um dos dez mandamentos: “não usarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão, porque o Senhor não deixa impune aquele que usa o seu nome em vão” (Êxodo 20,7). O nome de Deus foi revelado a Moisés na sarça ardente: “«Eu sou aquele que sou.» Ele disse: «Assim dirás aos filhos de Israel: ‘Eu sou’ enviou-me a vós!»” (Êxodo 3,14)

No último verso, Cohen parece falar a Deus, dizendo-lhe que, durante a vida, fez o melhor que podia: “I'll stand before the Lord of Song With nothing on my tongue but Hallelujah”. Na sua língua, apenas subsiste uma palavra: Hallelujah.



sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Jesus lhe disse: Dá-me de beber! (João 4,7)


Quando Jesus soube que os fariseus tinham ouvido dizer que ele fazia mais discípulos e batizava mais gente do que João – na verdade, Jesus mesmo não batizava, mas os seus discípulos- ele deixou a Judéia e foi para a Galiléia. Ora, era preciso que atravessasse a Samaria. Foi assim que ele chegou a uma cidade da Samaria chamada Sicar, não longe da terra dada por Jacó a seu filho José, lá mesmo onde se acha o poço de Jacó. Cansado da viagem, Jesus estava assim sentado na borda do poço. Era mais ou menos a sexta hora. Chega uma mulher da Samaria para tirar água; Jesus lhe disse: Dá-me de beber. Os seus discípulos, com efeito, tinham ido à cidade para comprar o que comer. Mas esta mulher, esta samaritana lhe disse: Como? Tu, um judeu, tu me pedes de beber a mim, uma mulher samaritana? Os judeus, com efeito, não querem ter nada em comum com os samaritanos. Jesus lhe respondeu:  Se conhecesses o dom de Deus, e quem é aquele que te diz: “Dá-me de beber”, tu é que lhe pedirias e ele te daria água viva. A mulher disse: Senhor, tu não tens sequer um balde, e o poço é profundo; de onde tiras, então, essa água viva? Serias maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço do qual ele mesmo bebeu, como também seus filhos e seus animais? Jesus lhe respondeu: Todo aquele que bebe desta água ainda terá sede; mas aquele que beber da água que eu lhe darei nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe darei se tornará nele uma fonte que jorrará para a vida eterna. A mulher lhe disse: Senhor, dá-me essa água, para que eu nunca mais tenha sede e não precise mais vir aqui tirar água. Jesus lhe disse: Vai, chama o teu marido e volta aqui. A mulher lhe respondeu: Não tenho marido. Jesus lhe disse: Tu dizes bem: “Não tenho marido”; tiveste cinco e o que tens agora não é teu marido. Nisso disseste a verdade. Senhor, disse-lhe a mulher, vejo que tu és um profeta. Os nossos pais adoraram sobre esta montanha, e vós afirmais que é em Jerusalém que se encontra o lugar onde se deve adorar. Jesus lhe disse: Acredita-me, ó mulher, vem a hora em que não é nem sobre esta montanha, nem em Jerusalém que adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora, e é agora, na qual os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade; tais são, com efeito, os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito, e por isso os que o adoram devem adorar em espírito e verdade. A mulher lhe disse: Eu sei que um Messias deve vir – aquele que chamam Cristo. Quando ele vier, anunciar-nos-á todas as coisas. Jesus lhe disse: Sou eu, eu que estou falando a ti. Nisso, os discípulos chegaram. Eles ficaram estupefatos ao verem Jesus falar com uma mulher; mas ninguém lhe disse: Que procuras? Ou Por que lhe falas?  A mulher, então, abandonando o cântaro, foi à cidade e disse ao povo: Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não seria ele o Cristo? Eles saíram da cidade e foram ter com ele. Enquanto isso, os discípulos insistiam com ele: Rabi, come! Mas ele lhes disse: Eu tenho para comer um alimento que vós não conheceis. Nisso, os discípulos disseram entre si: Alguém lhe teria dado de comer? Jesus lhes disse: O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra. Vós mesmos não dizeis: Daqui a quatro meses vira a messe? Ora, eu vos digo: levantai os olhos e olhai, já os campos estão brancos para a messe! Já o ceifeiro recebe o seu salário e ajunta fruto para a vida eterna, de tal modo que aquele que semeia e aquele que colhe se alegram juntos. Pois nisso é verdadeiro o provérbio: Um é o que semeia, outro, o que colhe. Eu vos enviei para colher o que não vos custou nenhum trabalho; outros trabalharam e vós entrastes no que lhes custou tanto trabalho! Muitos samaritanos daquela cidade tinham acreditado nele por causa da palavra da mulher que afirmava: Ele me disse tudo o que eu fiz! Assim, quando chegaram junto dele, os samaritanos lhe pediram que ficassem entre eles. E ele ficou lá dois dias. Bem mais numerosos ainda foram os que creram por causa da própria palavra de Jesus; e eles diziam à mulher: Não é somente por causa dos teus dizeres que nós cremos; nós mesmos o ouvimos e sabemos que ele é verdadeiramente o Salvador do mundo.
Tradução ecumênica de Biblia (TEB)


INTRODUÇÃO AO TEMA PARA O ANO DE 2015



Jesus lhe disse: Dá-me de beber! 
(João 4,7)


1. Quem bebe desta água…
Viagem, sol escaldante, cansaço, sede… “Dá-me de beber!” É um pedido de toda pessoa humana! Deus, que se fez gente em Cristo e se esvazia para compartilhar nossa humanidade (Fl 2, 6-7), é capaz de pedir à mulher samaritana: “Dá-me de beber!” (Jo 4,7). Ao mesmo tempo, esse Deus que vem ao nosso encontro oferece a água viva: “ A água que eu lhe darei se tornará uma fonte que jorrará para a vida eterna.” (Jo 4,14)
O encontro entre Jesus e a mulher samaritana nos convida a experimentar água de um poço diferente e também a oferecer um pouco da nossa própria água. Na diversidade, nos enriquecemos uns aos outros. A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos é um momento privilegiado para oração, encontro e diálogo. É uma oportunidade para reconhecer a riqueza e o valor que estão presentes no outro, no diferente, e para pedir a Deus o dom da unidade.
“Quem bebe desta água sempre volta” – diz um provérbio brasileiro, utilizado quando uma pessoa que nos visita vai embora. Um copo refrescante de água, chimarrão[1], tereré[2] são sinais de acolhimento, diálogo e convivência. O gesto bíblico de oferecer água a quem chega (Mt 10,42), como forma de acolhida e partilha, é algo que se repete em todas as regiões do Brasil.
O estudo e a meditação propostos neste texto para a Semana de Oração têm o objetivo de ajudar as pessoas e comunidades a perceber a dimensão dialogal do projeto de Jesus, que chamamos de Reino de Deus. O texto afirma a importância de uma pessoa conhecer e compreender sua própria identidade para que a identidade do outro não seja vista como uma ameaça. Se não nos sentimos ameaçados, estaremos capacitados para experimentar o outro como algo complementar: sozinha, uma pessoa ou uma cultura não se basta! Por isso, a  imagem que emerge das palavras “dá-me de beber” é algo que nos fala de complementaridade: beber água do poço de alguém é o primeiro passo para experimentar o modo de ser do outro. Isso leva a uma partilha de dons que nos enriquece. Quando os dons do outro são recusados, há prejuízo para a sociedade e para a Igreja.
No texto de João 4, Jesus é um estrangeiro que chega cansado e com sede. Ele precisa de ajuda e pede água. A mulher está na sua própria terra; o poço pertence a seu povo, à sua tradição. Ela é dona do balde e é ela que tem acesso à água. Mas ela também está com sede. Eles se encontram e esse encontro oferece uma inesperada oportunidade para ambos. Jesus não deixa de ser judeu porque bebeu água oferecida por uma mulher samaritana. A samaritana permanece sendo ela mesma ao acolher o caminho de Jesus. Quando reconhecemos que temos necessidades recíprocas, a complementaridade acontece em nossas vidas de modo mais enriquecedor. Esse “Dá-me de beber” nos impulsiona a reconhecer que pessoas, comunidades, culturas, religiões e etnias precisam umas das outras.
Dizer “Dá-me de beber” supõe que Jesus e a Samaritana se perguntam mutuamente sobre aquilo de que têm necessidade. Dizer “Dá-me de beber”, leva-nos a reconhecer que as pessoas e as populações na sua diversidade, as comunidades, as culturas e as religiões têm necessidade uns dos outros.
“Dá-me de beber” traz consigo uma ação ética que reconhece a necessidade que temos uns dos outros na vivência da missão da Igreja. É algo que nos impele a mudar nossa atitude, a nos comprometer com a busca da unidade no meio de nossa diversidade, através de nossa abertura para uma variedade de formas de oração e espiritualidade cristã.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Oração pelos defuntos


Deus de infinita misericórdia,
confiamos à tua imensa bondade
aqueles que deixaram este mundo para a eternidade,
onde Tu aguardas toda a humanidade
redimida pelo sangue precioso de Cristo Teu Filho,
morto para nos libertar dos nossos pecados.

Não olhes, Senhor, para as tantas
pobrezas e misérias e fraquezas humanas
quando nos apresentarmos diante do Teu tribunal,
para sermos julgados, para a felicidade ou a condenação.

Dirige para nós o teu olhar misericordioso
 que nasce da ternura do teu coração,
e ajuda-nos a caminhar em direcção a uma completa purificação.

 Não se perca nenhum dos teus filhos
no fogo eterno do inferno
onde já não poderá haver arrependimento.

 Te confiamos, Senhor,
as almas dos nossos entes queridos,
das pessoas que morreram sem o conforto sacramental,
ou não tiveram ocasião de se arrepender nem mesmo no fim da sua vida.

Que ninguém tenha receio de te encontrar
 depois da peregrinação terrena,
na esperança de sermos recebidos nos braços
da tua infinita misericórdia.

Que a irmã morte corporal
nos encontre vigilantes
na oração e carregados de todo o bem
realizado ao longo da nossa breve ou longa existência.

 Senhor, nada nos afaste de Ti nesta terra,
mas tudo e todos nos apoiem no ardente desejo
de repousar serena e eternamente em Ti.
 Amen.

Papa Francisco (02/11/2014)

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Frases de Cua D’Ars falando do Sacerdócio



“Se tivéssemos fé, veríamos Deus oculto no sacerdote, como a luz por trás da vidraça, como vinho misturado na água.”

“Devemos considerar o padre quando está no altar e no púlpito como se fosse o próprio Deus”

 “Oh! como o sacerdote é algo sublime! Se ele se apercebesse morreria… Deus lhe obedece: diz duas palavras e Nosso Senhor desce do céu.”

“Se não tivéssemos o sacramento da Ordem, não teríamos Nosso Senhor. Quem o colocou no tabernáculo? O padre. Quem foi que recebeu nossa alma à entrada da vida? O padre. Quem a alimenta para lhe dar força de fazer sua peregrinação? O padre. “Quem a preparará para comparecer perante Deus, lavando a alma pela última vez no sangue de Jesus Cristo? O padre, sempre o padre. E se alma vier a morrer, quem a ressuscitará, quem lhe dará a calma e a paz? Ainda o padre.”

 “O Sacerdote não é para si, mas para vós… “Quem recebeu vossa alma à sua entrada na vida? É o sacerdote. – Quem a sustenta para dar-lhe a força de fazer sua peregrinação? O sacerdote. – Quem há de prepará-la para se apresentar diante de Deus, purificando-a pela última vez no sangue de Jesus Cristo? O sacerdote, sempre o sacerdote. – “E se a alma morrer quem há de ressuscitá-la? Ainda o sacerdote. – Não há benefício alguma de que vos lembreis sem ver logo ao lado desta recordação a figura do sacerdote. – O sacerdote tem as chaves dos tesouros celestiais; é o procurador de Deus, é o ministrador de seus bens.”

“Só no céu compreenderemos a felicidade de poder celebrar a Missa.”

 “O padre não é para si. Não dá a si a absolvição. Não administra a si os sacramentos. Ele não é para si, é para vós.”

“Se um padre vier a morrer em conseqüência dos trabalhos e sofrimentos suportados pela glória de Deus e a salvação das almas não seria nada mal.” “O Sacerdote só será bem compreendido no céu… Se o compreendêssemos na terra, morreríamos, não de pavor, mas de amor.” “Se não fosse o padre, a morte e a Paixão de Nosso Senhor de nada serviriam.”

“O Sacerdote é o amor do Coração de Jesus. Quando virdes o padre, pensai em Nosso Senhor Jesus Cristo. Depois de Deus, o padre é tudo!”

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Dia Mundial das Missões 2014

Mensagem do Papa Francisco




Ainda hoje há tanta gente que não conhece Jesus Cristo. Por isso, continua a revestir-se de grande urgência a missão ad gentes, na qual são chamados a participar todos os membros da Igreja, pois esta é, por sua natureza, missionária: a Igreja nasceu «em saída». O Dia Mundial das Missões é um momento privilegiado para os fiéis dos vários Continentes se empenharem, com a oração e gestos concretos de solidariedade, no apoio às Igrejas jovens dos territórios de missão.

Evangelho de Lucas (cf. 10, 21-23).

Naquele tempo, Jesus designou setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois, à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. Disse-lhes: «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe. Ide! Envio-vos como cordeiros para o meio de lobos. Não leveis bolsa, nem alforge, nem sandálias; e não vos detenhais a saudar ninguém pelo caminho. Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: ‘A paz esteja nesta casa!’

Os setenta e dois discípulos voltaram cheios de alegria, dizendo: «Senhor, até os demónios se sujeitaram a nós, em teu nome!» Disse-lhes Ele: «Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago. Olhai que vos dou poder para pisar aos pés serpentes e escorpiões e domínio sobre todo o poderio do inimigo; nada vos poderá causar dano. Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos, antes, por estarem os vossos nomes escritos no Céu.

Depois, Jesus ficou cheio de alegria sob a acção do Espírito Santo e disse: «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado.




Comentário do Papa: 1) Jesus falou aos discípulos; 2) depois dirigiu-Se ao Pai, para voltar de novo a falar com eles; 3) Jesus torna os discípulos participantes da sua alegria.

1. Enviou os dois a dois, os setenta e dois discípulos a anunciar, nas cidades e aldeias, que o Reino de Deus estava próximo, preparando assim as pessoas para o encontro com Jesus. Cumprida esta missão de anúncio, os discípulos regressaram cheios de alegria: a alegria é um traço dominante desta primeira e inesquecível experiência missionária. O Mestre divino disse-lhes: «Não vos alegreis, porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos, antes, por estarem os vossos nomes escritos no Céu. Nesse mesmo instante, Jesus estremeceu de alegria sob a acção do Espírito Santo e disse: “Bendigo-te, ó Pai (…)”. Voltando-se, depois, para os discípulos, disse-lhes em particular: “Felizes os olhos que vêem o que estais a ver”» (Lc 10, 20-21.23).

2. Escolha: Os discípulos estavam cheios de alegria, entusiasmados com o poder de libertar as pessoas dos demónios. Jesus, porém, recomendou-lhes que não se alegrassem tanto pelo poder recebido, como sobretudo pelo amor alcançado, ou seja, «por estarem os vossos nomes escritos no Céu» (Lc 10, 20). Com efeito, fora-lhes concedida a experiência do amor de Deus e também a possibilidade de o partilhar. E esta experiência dos discípulos é motivo de jubilosa gratidão para o coração de Jesus.

3. Oração de Jesus: «Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado» (Lc 10, 21). Fazer a vontade do Pai «o teu agrado», isto é, significa o plano salvífico e benevolente do Pai para com os homens. No contexto desta bondade divina, Jesus exultou, porque o Pai decidiu amar os homens com o mesmo amor que tem pelo Filho. Jesus, ao ver o bom êxito da missão dos seus discípulos e, consequentemente, a sua alegria, exultou no Espírito Santo e dirigiu-Se a seu Pai em oração. «A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria».


4. «O grande risco do mundo actual, com a sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada». Por isso, a humanidade tem grande necessidade de acolher a salvação trazida por Cristo. Os discípulos são aqueles que se deixam conquistar mais e mais pelo amor de Jesus e marcar pelo fogo da paixão pelo Reino de Deus, para serem portadores da alegria do Evangelho. Todos os discípulos do Senhor são chamados a alimentar a alegria da evangelização. Os bispos, como primeiros responsáveis do anúncio, têm o dever de incentivar a unidade da Igreja local à volta do compromisso missionário, tendo em conta que a alegria de comunicar Jesus Cristo se exprime tanto na preocupação de O anunciar nos lugares mais remotos como na saída constante para as periferias de seu próprio território, onde há mais gente pobre à espera. Em muitas regiões, escasseiam as vocações ao sacerdócio e à vida consagrada. Com frequência, isso fica-se a dever à falta de um fervor apostólico contagioso nas comunidades, o que faz com as mesmas sejam pobres de entusiasmo e não suscitem fascínio. A alegria do Evangelho brota do encontro com Cristo e da partilha com os pobres. Por isso, encorajo paróquias e os diversos movimentos, a viverem uma intensa vida fraterna, fundada no amor a Jesus e atenta às necessidades dos mais carecidos. Onde há alegria, fervor, ânsia de levar Cristo aos outros, surgem vocações genuínas, nomeadamente as vocações laicais à missão. 

13 de Outubro de 1917

Devido ao facto de os pastorinhos terem revelado que a Virgem Maria iria fazer um milagre neste dia para que todos acreditassem, estavam presentes na Cova da Iria cerca de 50 mil pessoas, segundo os relatos da época. Chovia com abundância e a multidão aguardava as três crianças nos terrenos enlameados da serra. Lúcia assim descreve estes acontecimentos na Memória IV: "Saímos de casa bastante cedo, contando com as demoras do caminho. O povo era em massa. A chuva, torrencial. Minha mãe, temendo que fosse aquele o último dia da minha vida, com o coração retalhado pela incerteza do que iria acontecer, quis acompanhar-me. Pelo caminho, as cenas do mês passado, mais numerosas e comovedoras. Nem a lamaceira dos caminhos impedia essa gente de se ajoelhar na atitude mais humilde e suplicante. Chegados à Cova de Iria, junto da carrasqueira, levada por um movimento interior, pedi ao povo que fechasse os guarda-chuvas para rezarmos o terço. Pouco depois, vimos o reflexo da luz e, em seguida, Nossa Senhora sobre a carrasqueira.
Lúcia: - Que é que Vossemecê me quer? Nossa Senhora: – Quero dizer-te que façam aqui uma capela em Minha honra, que sou a Senhora do Rosário, que continuem sempre a rezar o terço todos os dias. A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para suas casas. - Eu tinha muitas coisas para Lhe pedir: se curava uns doentes e se convertia uns pecadores, etc. - Uns, sim; outros, não. É preciso que se emendem, que peçam perdão dos seus pecados. E tomando um aspecto mais triste: – Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor que já está muito ofendido. E abrindo as mãos, fê-las reflectir no Sol. E enquanto que se elevava, continuava o reflexo da Sua própria luz a projectar-se no Sol."



Neste momento, Lúcia diz para a multidão olhar para o sol, levada por um movimento interior que a isso a impeliu. "Desaparecida Nossa Senhora, na imensa distância do firmamento, vimos, ao lado do sol, S. José com o Menino e Nossa Senhora vestida de branco, com um manto azul." Era a Sagrada Família.

"S. José com o Menino pareciam abençoar o Mundo com uns gestos que faziam com a mão em forma de cruz. Pouco depois, desvanecida esta aparição, vi Nosso Senhor acabrunhado de dôr a caminho do Calvário e Nossa Senhora que me dava a ideia de ser Nossa Senhora das Dores." Lúcia via apenas a parte superior do corpo de Nosso Senhor e Nossa Senhora não tinha a espada no peito "Nosso Senhor parecia abençoar o Mundo da mesma forma que S. José. Desvaneceu-se esta aparição e pareceu-me ver ainda Nossa Senhora, em forma semelhante a Nossa Senhora do Carmo, com o Menino Jesus ao colo."

Enquanto os três pastorinhos eram agraciados com estas visões (apenas Lúcia viu os três quadros, Jacinta e Francisco viram somente o primeiro), a maior parte da multidão presente observou o chamado O Milagre do Sol. A chuva que caía cessou, as nuvens entreabriram-se deixando ver o Sol, assemelhando-se a um disco de prata fosca, podia fitar-se sem dificuldade sem cegar. A imensa bola começou a girar vertiginosamente sobre si mesma como uma roda de fogo. Depois, os seus bordos tornaram-se escarlates e deslizou no céu, como um redemoinho, espargindo chamas vermelhas de fogo. Essa luz refletia-se no solo, nas árvores, nas próprias faces das pessoas e nas roupas, tomando tonalidades brilhantes e diferentes cores. Animado três vezes por um movimento louco, o globo de fogo pareceu tremer, sacudir-se e precipitar-se em ziguezague sobre a multidão aterrorizada. Tudo durou uns dez minutos. Finalmente, o Sol voltou em ziguezague para o seu lugar e ficou novamente tranquilo e brilhante. Muitas pessoas notaram que as suas roupas, ensopadas pela chuva, tinham secado súbitamente. Tal fenómeno foi testemunhado por milhares de pessoas, até mesmo por outras que estavam a quilómetros do lugar das aparições. O relato foi publicado na imprensa por diversos jornalistas que ali se deslocaram e que foram também eles, testemunhas do milagre. 

Oração a Maria

«Feliz aquela que acreditou» (Lc 1,45)

Virgem e Mãe Maria,
Vós que, movida pelo Espírito,
acolhestes o Verbo da vida
na profundidade da vossa fé humilde,
totalmente entregue ao Eterno,
ajudai-nos a dizer o nosso «sim»
perante a urgência, mais imperiosa do que nunca,
de fazer ressoar a Boa-Nova de Jesus.

Vós, cheia da presença de Cristo,
levastes a alegria a João o Baptista,
fazendo-o exultar no seio de sua mãe (Lc 1,41).
Vós, estremecendo de alegria,
cantastes as maravilhas do Senhor (Lc, 1,46s).
Vós, que permanecestes firme diante da Cruz
com uma fé inabalável (Jo 19,25)
e recebestes a jubilosa consolação da ressurreição,
reunistes os discípulos à espera do Espírito
para que nascesse a Igreja evangelizadora (Act 1,14).

Alcançai-nos agora um novo ardor de ressuscitados
para levar a todos o Evangelho da vida
que vence a morte.
Dai-nos a santa audácia de buscar novos caminhos
para que chegue a todos
o dom da beleza que não se apaga.

Vós, Virgem da escuta e da contemplação (Lc 2,19),
Mãe do amor (Ecli 24,24 Vulg), esposa das núpcias eternas (Ap 19,7),
intercedei pela Igreja, da qual sois o ícone puríssimo,
para que ela nunca se feche nem se detenha
na sua paixão por instaurar o Reino.

Estrela da nova evangelização,
ajudai-nos a refulgir com o testemunho da comunhão,
do serviço, da fé ardente e generosa,
da justiça e do amor aos pobres,
para que a alegria do Evangelho
chegue até aos confins da terra
e nenhuma periferia fique privada da sua luz.

Mãe do Evangelho vivo,
manancial de alegria para os pequeninos,
rogai por nós.
Ámen. Aleluia!

Papa Francisco

Exortação apostólica «Evangelii Gaudium / A Alegria do Evangelho» § 288